quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Riqueza que lhes podemos dar

"Ó filha, a maior riqueza que lhe podes dar é a maminha!", disse-me a minha avó de 93 anos ao telefone. "Há muitas que não a querem dar, mas tu dá, filha, que é o maior tesouro."
Há 10 anos atrás, quando o Guilherme nasceu, a coisa foi complicada. Agora não foi totalmente (não é) fácil, mas menos complicada... muito menos.
Nunca sonhei com casamento. Nunca fiz planos e disse: "Quero isto assim e assim e assim, quando me casar." Nunca pensei muito sobre o assunto. Talvez por isso tenha casado, de uma quarta para uma sexta, numa conservatória, na qual estavam apenas presentes, para além dos noivos, o nosso filho, a minha mãe e a minha sobrinha. E, pronto, já está.
Mas no que respeita à maternidade... tinha sonhos, planos, ideias e afins. Amamentar era uma delas. Ainda grávida, quando ao sair do banho, vi que do meu peito saia um líquido, foi uma bateria de alegria que se instalou em mim. Fiquei feliz, pois achava que seria sinal que amamentação do Guilherme com leite materno estava garantida.
O Gui nasceu e no hospital começou a saga. Eu digo-lhe que ele ja aí mostrava o quanto era preguiçoso, pois não sugava. Adormecia assim que tocava no mamilo. As enfermeiras diziam que bastava uma gota ou outra entrar na sua boca, que seria o suficiente. Mas nós não estávamos satisfeitos. O Guilherme parecia mole, sem forças... trouxeram-me da farmácia bicos de silicone, de latex... tudo para ver se ele pegava no peito, mas nada.
Um dia em desespero, talvez no segundo ou terceiro dia após o seu nascimento, comecei a chorar junto da enfermeira chefe da Neonatologia e ela tentou acalmar-me. Mandou-me sentar no cadeirão ao lado da máquina de extracção de leite e assim foi. Quando meti um biberão cheio na boca do Gui, fechei os olhos e abri, e já não havia mais leite. Bebeu-o num ápice.
Diziam-me para o destapar, tirar-lhe a roupa, beliscar, fazer cócegas... de modo a que não adormecesse ao mamar. Que conste que o Gui nasceu em Janeiro, no ano que nevou em Lisboa! Não tinha coragem para o deixar sem roupa, quando eu estava de pijama e roupão, e ainda com sensação de desconforto.
A maneira, como resolvemos a situação ao ir para casa, foi comprar uma bomba, extrair o leite do peito e dar-lhe. Como devem calcular, ele aí já não mostrava preguiça. Bebia muito bem. Para além disso, ele pegou no peito através das tetinas de látex, o que permitiu que não tivesse constantemente de extrair leite, mas dar-lhe "directamente" do peito. Contudo o peso não aumentava de acordo com os padrões médicos. Por isso perto dos seus 15 dias de vida, começou a tomar paralelamente fórmula.
Com cerca de 20 e poucos dias teve a sua primeira ida às urgências do hospital. Mal diagnosticado, teve de voltar uma segunda vez e à terceira ficou internado. Entretanto, eu própria tive de ir ás urgências, pois o meu organismo estava desregulado. E aí o médico, apercebendo-se do meu estado de nervosismo, sugeriu um medicamento para me acalmar, que nunca tomei.
Ao fim e ao cabo fiquei sem amamentar durante dias e sem fazer extracção. Não sabia se no estado em que estava poderia amamentar, pensava que não, o que veio a ser validado por um médico ou enfermeiro, que me disse para não o fazer, pois não estava certa que a causa não fosse física. Porém, já mais tarde, disseram-me o contrário.
Se alguém me informou que podia amamentar, apesar de o meu bebé estar internado? Ou que deveria extrair para estimular a produção de leite? Não. Se me informei? Também não. Estava tão nervosa de ter o meu filho internado e depois de o ver na incubadora... que não tinha cabeça para nada.
Quando ele passou para a Pediatra, depois de deixar de ser recém nascido, salvo erro aos 28 dias, passava o tempo todo com ele, mas minguem falou, e nós não perguntámos, se poderia dar-lhe do meu leite. E por isso houve um interregno de cerca de 10 dias, ou mais, que o meu peito deixou de estar em funcionamento.
Pelo menos até aos 4 meses, o Guilherme foi amamentado com pouco leite materno, mas algum, e em paralelo com fórmula, que foi introduzida com cerca de 15 dias de vida. Mas este não era o meu sonho inicial. Consigo, agora à distância, perceber algumas falhas nossas, que podem ter sido impedimento para a realização do meu sonho. Graças a Deus, tive oportunidade de sonhar de novo. E aprender com os passos em falso do passado. [Continua]

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