Guilherme

A Noite Mais Longa da Minha Vida

janeiro 15, 2018

Esta noite, há 12 anos atrás, foi a noite mais longa da minha vida. Vi as horas passarem, todas. No escuro, deitada e a esfregar as costas.
Tinha dores nas costas, na zona dos rins. Estava de lado na maca de um hospital em paralelo com mais umas quantas macas. Tinha ido às urgências e acabei por ficar. Não sabia o que me esperava, mas estava alegre por estar a viver aquele momento - apesar de todas as queixas.
Nessa noite vivi vários episódios sinistros, que hoje até me fazem rir ao recordá-los. Já com o sol a entrar forte e luminoso na sala comum em que me encontrava, recebi, por breves instantes, a visita da minha mãe. E as dores ainda não tinham passado.

Estava grávida a um mês de dar à luz.
Aos 25 anos fui mãe pela primeira vez. Só vim a ter nova alegria dez anos depois.
Durante a manhã voltei a viver momentos que hoje me fazem soltar gargalhadas, de caricatos que foram. Parecia, por vezes, que estava metida num filme, meio cómico, meio dramático. Não tomei o pequeno almoço. Também não tinha fome. Aliás no domingo come-se cozido à portuguesa na minha sogra. E o jantar também tinha sido a meu gosto. De barriga farta, estava eu. A hora de almoço já se aproximava. E parecia que também não ia almoçar. Mas pouco importava.
Aos poucos, lentamente, nem a minha vontade de me manter calma com respirações suaves e profundas, nem o esfregar das costas, nem a certeza que tudo ia passar me deixavam serena... devagar começava a ficar ansiosa e cansada de não ver um desfecho. Foi aí que tudo deu início!
Gritei de desespero e chamei a atenção de quem estava supostamente a tomar conta do meu caso. Entre ideias contraditórias e palpites inadequados, levantei-me da maca, percorri um pequeno corredor, entrei num sala mais reservada, e já estava lá quem esperasse por mim. Tocou uma campainha e mais pessoas se juntaram. Soube que eram estagiários para assistir ao meu caso.

Eu com o Guilherme, com poucos dias de vida, no nosso quarto em casa
Guilherme com poucos dias de vida nos meus braços no quarto em nossa casa.
Sentei-me onde me indicaram. Coloquei uma perna onde me disseram, e depois a outra. E assim, inesperadamente para quem conduzia a operação, em menos de nada, nascia o meu primeiro filho. Aquele que me tornou mãe. E mesmo passados 12 anos lembro de cada detalhe daquele exacto momento em que o vi pela primeira vez. Tenho na minha memória as minhas primeiras palavras: "Olá, meu amor! Eu sou aquela voz que tu ouves tantas vezes a falar contigo. Eu sou a tua mãe." E ele, deitado sobre o meu peito, tentando manter a cabeça erguida, olhando-me também, com um olhar de quem estava confuso, franziu a testa. E ficámos por curtos minutos ali, naquele contacto que apagou as dores, e nos ligou para todo o sempre.

A neve a cair sobre os carros estacionados por trás da nossa casa em Portugal.
A neve em Janeiro de 2006 na zona de Lisboa. A primeira e única vez que vi nevar onde morávamos (em Portugal).

Há 12 anos atrás estávamos em Portugal. Ele nascia no antigo Hospital de Vila Franca de Xira. Foi um inverno rigoroso. Nesse ano nevou em Lisboa. Hoje já vimos nevar muitas vezes. Estamos a viver na Alemanha, e ele já se juntou a irmã. Naquela noite, num sonharia que 12 anos depois estaria aqui, onde estamos. E nem imaginava todo o caminho que já percorremos. Mas continuo a desejar que aquela tenha sido a noite mais longa da minha vida com dores à espera dele.


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