sábado, 8 de outubro de 2016

As Férias da Batata

O Guilherme entra hoje de férias: as férias da batata. Bem, actual e oficialmente chamam-se férias de Outono. Na cidade, os miúdos vão usar esse tempo livre para outras actividades. Mas no campo ainda alguns dos pequenos vão ajudar os pais na apanha desse tubérculo, como na época da guerra e do pós-guerra.
Nesse tempo, as boas colheitas eram essenciais para a sobrevivência das famílias, por isso era importante tirar a batata no tempo certo. E como a minha avó diz: "o trabalho de menino é pouco, e quem o desperdiça é louco". Muitos homens, nessa altura, estavam noutro campo, no campo de batalha (guerra), e muitos faleceram nele, por isso era primordial o trabalho das crianças. Eram as dos 10 aos 12 anos que acompanhavam as mulheres na apanha. Com as mãos cavavam para colher as batatas.

Fonte: mitterfels-online.de
O dia de trabalho começava no início da manhã com a ida de todos para o campo. Às mulheres e às crianças mais velhas era-lhes dado um ancinho e uma cesta. De joelhos, deslizavam ao longo das covas e retiravam para o lado a erva do topo das batata. Com os ancinhos retiravam as batatas da terra. Para protecção das mãos havia luvas. Aliás esta actividade era foi feita à mão até aos anos 60, altura em que foi introduzida lentamente a colheita feita por os cavalos a puxar o arado.
A colheita à mão tinha as suas vantagens: encontravam-se batatas de formas engraçadas, como coração, que se guardavam para si, mas também as crianças bem cedo começavam a detectar o escaravelho da batata, que era muito prejudicial para as batatas, pois devoravam as batatas, já que estes bichos tinham preferência pelas batatas ainda frescas. E assim salvavam este alimento da praga.

Fonte: mittelbayerische.de

As crianças menores ajudavam a recolher as batatas para a cesta. Quando as cestas estavam cheias, eram levadas por um homem forte, pois eram muito pesadas para as crianças, mas alguns idosos, mesmo assim, ajudavam. E eram esvaziadas para sacos que estavam no meio do campo numa longa fila. Assim que os sacos estavam cheios, o agricultor colocava-os na caixa da sua carrinha estacionada à beira da estrada. Quando estava carregada, o agricultor partia com ela. As mulheres aproveitavam esse tempo para se esticar. E as crianças corriam pelo campo e  jogavam à apanhada. Assim que o agricultor reaparecia com o vagão vazio, todos voltavam prontamente à colheita.

Fonte: lwl.org
Apesar de dar trabalho, não era encarado como tal, pois ainda se divertiam e tinham momentos de descanso. Pelo meio dia vinha a camponesa. Ela trazia caracóis doces e cevada. Todos se sentavam no sacos vazios e eram servidos. Lavar as mãos não era permitido, para poupar água, mas a terra limpava o estômago. Entretanto, os meninos apanhavam as ervas da batata, faziam um molho e ateavam fogo. O calor era bom. No final do trabalho usavam o fogo para assar batatas no espeto. Depois punham-lhe sal e comiam. Eram saborosas. 

Fonte: mitterfels-online.de
Mulheres e crianças iam para o campo dia após dia, quer fizesse sol ou chuva. O tempo não era desculpa. Na parte da manhã, às vezes estava tudo cheio de geada. O frio incomodava nos dedos. Quando chovia, a humidade penetrava no vestuário. E aí, as crianças teriam preferido ir à escola. Mas as férias só terminavam realmente quando os campos estavam todos limpos.Por fim, era feita a calculação e pagamento. Todos recebiam batatas de inverno e o seu pagamento, quer os adultos como as crianças. Eles ficavam muito orgulhosos. À noite, a mãe fazia a conta ao que haviam ganho todos juntos e dizia com satisfeitação: 
"Agora podemos fazer a matança, porque agora há dinheiro suficiente para um novo leitão!"Margret Rettich

Hoje é tudo automatizado, mas naquele tempo a colheita significava trabalho humano. Era essencial a ajuda das mãos das crianças. Por isso, por esta altura nesse tempo, as salas de aulas ficavam vazias... e, deste modo, nasceram as férias da batata, que hoje sao apenas as de outono. 

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