| Foto: Ana Filipa Oliveira/ 11.2011 |
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| Foto: Ana Filipa Oliveira/2016 |
Desculpa, filho, das vezes que saíste à rua com uma t-shirt quase acima do umbigo. Desculpa, filho, das vezes que foste para a escola com uns boxers dois números abaixo do teu. Desculpa, filho, das vezes que vestiste umas calças por remendar. Desculpa, filho, dos ténis apertados que te feriu os pés no andebol. Desculpa, filho, das meias a desfazerem-se. Desculpa, filho, dos pijamas acima das canelas, muito acima. Desculpa, filho, da roupa por passar. Desculpa, filho, das unhas não cortadas. Desculpa, filho, dos dentes não inspeccionados. Desculpa, filho, do cabelo que cresceu para lá da conta. Desculpa, filho, de não te ter ensinado que a primeira coisa que se faz quando se acorda é lavar a cara. Desculpa, filho, das vezes que te dei batata frita no lugar de dar brócolos cozidos. Desculpa, filho, das vezes que te deixei horas a fio a jogar consola invés de ir fazer uma actividade contigo. Desculpa, filho. E prometo que vou cuidar muito melhor de mim. Só assim saberei cuidar de ti. Desculpa, filho, de ser a mãe imperfeita que sou. Desculpa, filho.
Ele tinha oito anos a mais do que eu. Viveu, portanto, um reinado de quase uma década sem dividir atenções. Viveu sozinho, sem a companhia de uma outra criança... para partilhar as aventuras e para criar brigas sem norte. De repente, cá estava aquele pequeno ser que mexia com toda a família. A dinâmica da casa era outra, era nova, era estranha para ele, habituado a outro ritmo... Mas ao mesmo tempo era tão doce poder olhar para aquela bonequinha, tocá-la, vê-la a fazer as suas gracinhas... o primeiro sorriso...
Não sei se os meus pais o deixaram participar dos cuidados comigo. Nem sei se ele quis. Não sei se o mandaram calar para não acordar a irmã, que dormia. Não sei se deixou de fazer algo que gostava, porque eu vim estragar a festa, sendo a prioridade. Não sei se ele quis mostrar-me aos amigos e se os pais o fizeram. Não sei se chorou ao ter-me no colo pela primeira vez. Não sei se todos os dias, quando acordava, a primeira coisa que fazia era dar-me os bons dias. Não sei se ele me empurrava no carrinho todo orgulhoso pela rua fora. Não sei...
Não sei... mas estou certa, que mesmo que não sejamos os irmãos mais lamechas do mundo, mesmo que não falemos muito frequentemente, nem falemos directamente das coisas mais profundas das nossas almas... mesmo assim, sei, estou certa, que podemos contar um com o outro, e que a vida é bem melhor acompanhada, partilhando as aventuras e as birras... em criança e em adulto.
Expliquei ao médico da Mariana que estava praticamente sem leite nas mamas (técnicos da área da saúde disseram-me que é incorrecto dizer "peito" et voilá sou bem mandada) e ainda lhe disse que tinha de recorrer à fórmula. Ele nem por um minuto foi pelo caminho mais fácil... insistiu que eu precisava de beber mais água (muita água). Aconselhou-me a colocar uma garrafa de água em cada divisão da casa, para me ir abastecendo. Ainda me incentivou a deixar tudo e descansar. Que os familiares cuidassem da casa e do mais velho, para eu repousar! Segundo ele, o stress é prejudicial. Pois, mas a nossa família está a alguns milhares de quilómetros de distância. Portanto, há que fazer o melhor com os recursos disponíveis.
Ultimamente a Mariana tem recebido um biberão de fórmula ao final do dia, pois é nessa altura que a situação se torna mais problemática: não tenho quase leite nenhum e ela chora de desespero. Além disso ninguém consegue dormir profundamente de barriga vazia, certo? Ela também não.
Se me custa? Claro que sim. Como disse, tinha uma meta e estou com dificuldades elevadas para a atingir, o que me entristece... e custa, pois tenho que fazer uma gestão maior, ou mais controlada, do meu leite: extrair mais vezes, beber mais água/líquidos, (tentar) descansar mais, (tentar) comer melhor e no meio disto tudo conseguir manter a Mariana saciada, o que nem sempre é fácil. E porque é que ainda continuo nesta luta? Porque ainda há sinais de que é possível, que não está perdida. O facto da Mariana aumentar de peso é um óptimo indicador. Até quando? Não sei.
Mas, com leite materno ou com artificial, estes momentos são e serão sempre de intimidade (familiar) e permanecerão para sempre na nossa memória. (Mais que não seja através desta fotografia!)
Bem, mas estava a contar que estava habituada ao meu menino. Não só nas cores que ele vestia, nos detalhes que ele preferia no bloco de papel, mas também ao seu carácter forte, rijo, resistente... e também pacífico, sereno... a Mariana tem-me testado com novas características. É sensível, chorona e reclama sem cessar por aquilo que quer até conseguir. Mas ontem não conseguiu.
Ontem fomos ao médico e foi vacinada pela primeira vez. Foi daqueles dias que não contam para a alegria de ser mãe. Aqueles dias que antes deles nascerem não fazem parte dos nossos sonhos, dos dias cor de rosa que vimos no nosso filme... Mas fazem parte. E têm de se viver, não dá para passar a outro.
Um dos testes pelo qual ela me fez (e faz) passar é o de chorar ao ponto de ficar completamente vermelha e com a respiração sustida. Foi o que aconteceu ontem no consultório, mas numa versão extrema. Pensei que ela desmaiava e eu a seguir. Mesmo depois de receber as duas vacinas injectáveis, uma em cada perna, e uma bebível e desta cena, o choro continuou. Mal conseguia ouvir o médico. E de tal modo foi que ficou cansada e adormeceu no carro, sem querer saber de mamar. O irmão, que nos acompanhou, ficou aflito por ela e dizia que não a conseguia ver assim.
Com o Guilherme era suave o processo. Ele não se queixava muito. Com ela, aprendo a conhecer limites meus que ainda estavam por explorar e a acreditar que Deus nos faz fortes nos momentos de aflição. É aí que nos superamos e que percebemos de que carne e espírito somos feitos. Nem sempre é fácil. Não. Mas sempre pode ser transformador.
O Guilherme era um bebé muito pacífico. Tudo estava bem para ele. Dormia e comia, não exigia colo, nem muito abanico. Era um relogiozinho para comer, mas não fazia um grande espectáculo. Já a Mariana é praticamente o oposto. Já apanhámos alguns sustos com ela, pois chega a ficar vermelhona e de respiração sustida, se não lhe respondemos ao que quer, por exemplo colo, abanico, comida (muito leitinho!)...
Tal como não há duas gravidezes iguais uma à outra, também não há dois filhos. E é bom assim! Seria monótono, se fosse tudo igual. Ahh, mas que a Mariana faz do Guilherme um santo, faz.



